segunda-feira, 4 de maio de 2026

Entre a reprodução e a transformação: o papel da gestão na EPT integral

Ao refletirmos sobre a gestão da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) integral e integrada, uma questão central se impõe: qual é, de fato, o papel da escola na sociedade? Seria apenas formar para o mercado de trabalho ou contribuir para a formação de sujeitos críticos, capazes de compreender e transformar a realidade?

Essa reflexão nos leva a compreender que a escola não pode ser pensada como um espaço neutro. Ao contrário, ela está inserida em uma realidade social marcada por desigualdades e disputas, e suas práticas pedagógicas e administrativas refletem, direta ou indiretamente, essas contradições.

Nesse contexto, os Institutos Federais surgem como uma proposta diferenciada. Conforme destaca Pacheco (2011), essas instituições foram concebidas com o compromisso de construir uma educação pública, democrática e socialmente referenciada, articulando ensino, pesquisa e extensão e buscando responder às demandas da sociedade de forma crítica e inovadora.

Essa proposta ganha ainda mais sentido quando articulada à perspectiva da formação humana integral. Para Ciavatta (2014), o ensino integrado e a politecnia representam uma ruptura com a lógica fragmentada da educação tradicional, ao propor a integração entre trabalho, ciência e cultura. Trata-se de uma formação omnilateral, que ultrapassa a simples preparação para o mercado e busca desenvolver sujeitos capazes de compreender o mundo em sua totalidade.

No entanto, na prática, a escola enfrenta desafios concretos. Muitas vezes, há pressões por resultados imediatos, metas quantitativas e formação voltada à empregabilidade rápida. Essa lógica pode reduzir o processo educativo a um conjunto de habilidades técnicas, esvaziando seu potencial formativo mais amplo.

É nesse ponto que a gestão escolar assume um papel estratégico. Como destaca Ferreira (2008), o pedagógico não se limita à sala de aula, mas é resultado da dinâmica coletiva da escola, construída a partir da colaboração entre todos os sujeitos envolvidos no processo educativo. Assim, pensar a gestão é pensar o próprio sentido da educação.

Além disso, Souza (2012) reforça que a qualidade da educação não depende apenas de infraestrutura ou recursos materiais, mas principalmente da atuação de profissionais qualificados e comprometidos. Nesse sentido, a integração entre gestores, docentes e Técnicos Administrativos em Educação (TAES) é fundamental para a construção de uma prática educativa coerente com os princípios da formação integral.

Outro aspecto essencial diz respeito à relação entre a escola e o território em que está inserida. De acordo com Vago (2017), a oferta de cursos precisa dialogar com os arranjos produtivos locais, considerando as características econômicas, sociais e culturais da região. Quando essa relação não é construída de forma consistente, podem surgir problemas como baixa procura por cursos e evasão escolar.

Por outro lado, quando a instituição se aproxima da comunidade, escuta suas demandas e integra essas informações ao seu planejamento, fortalece sua função social e amplia sua capacidade de transformação. Isso demonstra que o planejamento não pode ser um processo burocrático, mas sim uma construção coletiva, baseada na realidade concreta.

Dessa forma, a gestão na EPT integral e integrada exige mais do que organização administrativa: demanda compromisso político, sensibilidade social e capacidade de articulação. Trata-se de reconhecer que a escola é um espaço de disputa, mas também de possibilidades.

Entre a reprodução e a transformação, a diferença está nas escolhas feitas cotidianamente, e na capacidade da gestão de construir, coletivamente, caminhos que façam da escola um espaço verdadeiramente formador.



REFERÊNCIAS

  

CIAVATTA, Maria. O ensino integrado, a politecnia e a educação omnilateral. Por que lutamos?. Trabalho & Educação, Belo Horizonte, v. 23, n. 1, p. 187-205, 2014. Disponível em: https://forumeja.org.br/goias/o-ensino-integrado-a-politecnia-e-a-educacao-omnilateral-por-que-lutamos/. Acesso em: 20 abr. 2026.

FERREIRA, Liliana Soares. Gestão do pedagógico: de qual pedagógico se fala. Currículo sem fronteiras, [S. l.], v. 8, n. 2, p. 176-189, 2008. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Liliana-Soares-Ferreira-2/publication/228846428_Gestao_do_pedagogico_de_qual_pedagogico_se_fala/links/54d0e7820cf29ca811040176/Gestao-do-pedagogico-de-qual-pedagogico-se-fala.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026.

PACHECO, Eliezer. Institutos Federais: uma revolução na educação profissional e tecnológica. In: PACHECO, Eliezer (org.). Institutos Federais uma revolução na educação profissional e tecnológica. Brasília: Moderna, 2011. Disponível em: https://www.fundacaosantillana.org.br/wp-content/uploads/2019/12/67_Institutosfederais.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026.

SOUZA, Maria Aparecida Rodrigues de. Políticas educacionais e o técnico-administrativo em educação: contradições e desafios. [S. l.], 2012. Disponível em: https://sites.pucgoias.edu.br/pos-graduacao/mestrado-doutorado-educacao/wp-content/uploads/sites/61/2018/05/Maria-Aparecida-Rodrigues-de-Souza.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026.

VAGO, Rejane Maria de Araújo (2017). Análise da relação entre a oferta de cursos técnicos e os arranjos produtivos locais: um modelo metodológico em construção. Revista Eixo6(3), 48-57. https://doi.org/10.19123/eixo.v6i3.320. Disponível em: https://arquivorevistaeixo.ifb.edu.br/index.php/RevistaEixo/article/view/320/299. Acesso em: 16 abr. 2026.


Pinterest - EPT e TAEs: Inspiração em Imagens